Quem caminha pelas cidades brasileiras percebe um padrão difícil de ignorar: farmácias aparecem em praticamente todas as esquinas e muitas vezes lado a lado. Esse fenômeno não se restringe às grandes capitais e tampouco pode ser explicado como simples excesso de oferta. O crescimento do número de farmácias no Brasil segue uma lógica sustentada por demanda constante, consumo recorrente de medicamentos e mudanças profundas no comportamento da população em relação à saúde.
Não é incomum ver uma farmácia ao lado da outra, às vezes até dividindo a mesma quadra. Esse tipo de concentração costuma ocorrer em negócios com alta rotatividade e procura frequente, como mercados ou padarias. No caso das farmácias, essa repetição visual reflete a força do consumo e a presença contínua de pessoas buscando soluções rápidas para desconfortos do dia a dia.
Entender por que há tantas farmácias no Brasil exige ir além da paisagem urbana. É preciso observar dados de mercado, hábitos de consumo e práticas sociais que ajudam a explicar por que esse tipo de comércio continua crescendo mesmo em cenários econômicos instáveis.
O crescimento do número de farmácias no Brasil
O Brasil possui hoje um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo. O país conta com cerca de 90 mil farmácias e drogarias em funcionamento, número que cresceu de forma consistente nas últimas décadas. Esse avanço não ocorreu por acaso, nem de forma pontual, mas acompanhou transformações estruturais no perfil da população e na forma como os brasileiros consumem produtos relacionados à saúde.
Um dos fatores que contribuem para esse crescimento é o envelhecimento da população. À medida que a proporção de idosos aumenta, cresce também o uso contínuo de medicamentos para condições crônicas, como hipertensão, diabetes, dores articulares e distúrbios do sono. Esse tipo de consumo é previsível, recorrente e pouco sensível a oscilações econômicas, o que garante estabilidade ao setor farmacêutico.
Outro fator relevante é o acesso cada vez maior à informação em saúde. Sintomas são pesquisados rapidamente na internet, em buscadores, redes sociais e plataformas digitais. Esse contato constante com conteúdos médicos influencia decisões de consumo e reforça a busca por soluções imediatas, muitas vezes antes mesmo de uma consulta profissional.
No entanto, além desses fatores demográficos e informacionais, há um elemento central que sustenta o volume de consumo e ajuda a explicar por que há tantas farmácias no Brasil: a automedicação. O uso recorrente de medicamentos sem orientação médica formal ampliou de forma significativa a frequência de compras nas farmácias e ajudou a consolidar esse crescimento ao longo do tempo.
A automedicação como comportamento social no Brasil
A automedicação deixou de ser um comportamento pontual para se tornar uma prática social amplamente disseminada, pesquisas apontam que 9 a cada 10 brasileiros já têm o costume de automedicação. Analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares e medicamentos para ansiedade leve ou insônia fazem parte da rotina de muitas pessoas, mesmo quando não há acompanhamento médico contínuo.
Em grande parte dos casos, o consumo é guiado por experiências anteriores, indicações informais ou informações encontradas online. A sensação de familiaridade com determinados medicamentos cria a percepção de segurança, reduzindo a busca por avaliação profissional e normalizando o uso repetido.
O acesso à informação em saúde intensifica esse cenário. Embora ferramentas de inteligência artificial e plataformas digitais tenham limites claros quanto à recomendação direta de medicamentos, o contato constante com explicações sobre sintomas e possíveis causas contribui para decisões autônomas, nem sempre bem orientadas por parte dos pacientes, que acabam os levando à solução mais prática: a compra de medicamentos em farmácias.
Número de farmácias crescendo = estímulo da automedicação
O fácil acesso a medicamentos cria um ambiente propício ao uso indiscriminado. Esse cenário não é isento de consequências: casos de intoxicação medicamentosa, dependência e agravamento de quadros clínicos estão documentados e reforçam os riscos associados à prática.
O uso contínuo sem orientação adequada pode mascarar sintomas importantes, atrasar diagnósticos e dificultar tratamentos eficazes. Em vez de resolver o problema, o medicamento passa a silenciar sinais que indicariam a necessidade de investigação mais profunda.
O impacto da automedicação em quadros de ansiedade e saúde mental
Em pessoas que lidam com ansiedade, insônia ou outros transtornos mentais, a automedicação tende a se tornar ainda mais frequente. O uso repetido de medicamentos para aliviar sintomas emocionais pode proporcionar um alívio temporário, mas frequentemente contribui para a cronificação do sofrimento psíquico.
Esse padrão cria um ciclo silencioso: o desconforto emocional leva ao consumo de medicamentos, o consumo adia a busca por cuidado adequado, e o problema se mantém ou se intensifica ao longo do tempo. Nesse contexto, a automedicação deixa de ser um hábito pontual e passa a impactar diretamente a saúde mental do indivíduo. Remediar qualquer tipo de doença é o contrário de tratar com especialização e cuidado, principalmente pessoas com problemas de saúde mental, mais suscetíveis ao vício e ao conforto momentâneo da automedicação.
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O papel do médico diante desse cenário
Combater o comportamento por si só não resolve. É preciso compreender o contexto que o sustenta e ajudar o paciente a diferenciar alívio momentâneo de cuidado efetivo. Diante de um ambiente marcado por acesso fácil, informação abundante e consumo frequente de medicamentos, o papel do médico se torna ainda mais relevante.
Entender por que há tantas farmácias no Brasil e as razões pelas quais pacientes recorrem à automedicação permite orientar com clareza, sem moralização ou simplificações. Isso cria espaço para decisões de saúde mais conscientes e para um acompanhamento clínico que realmente contribua para o bem-estar. Os médicos devem se posicionar duramente contra a automedicação, sempre orientando e alertando seus pacientes dos perigos e dos vícios que pode causar, além de mostrar que um tratamento e cuidado efetivos podem ser muito mais eficientes que visitas recorrentes às drogarias.
Por isso, o grande número de farmácias no Brasil não é fruto do acaso. Ele reflete mudanças demográficas, maior acesso à informação e, sobretudo, a normalização da automedicação como resposta rápida aos desconfortos do cotidiano. A presença constante desses estabelecimentos nas cidades é consequência direta de uma demanda alta, frequente e socialmente construída.
Compreender essa lógica permite enxergar o fenômeno para além da superfície e refletir sobre seus impactos reais na saúde da população.